"cantarei" o que a vida me oferecer... bichos...efemérides...alegrias...raivas(!) e o que mais adiante se verá!

29
Jun 12

Estão por todos os cantos da casa, os meus,os que foram do meu Pai, os romances cor de rosa em francês do tempo da minha Mãe...os dos filhos...muitos, muitos sobre arte, B.D. ( do meu genro), pintura,arquitectura, códigos, muitos códigos, do meu Pai, do meu filho e do Pai dele...e alguns com encadernação de couro já "roídos", de medicina, em francês, herança do meu Bisavô Silva, os dos netos...muitos, demais talvez.( a demasia volve desvalorização...) Livros. Não imagino a minha vida sem eles. Se os li todos, pergunta o Sapo. Claro que não, muitos nem são da "minha área" de interesses ou conhecimento . Mas estimo-os, preservo-os, limpo-lhes o pó quando calha...mudo-os de lugar para "fazer mais espaço..."-  só nunca consegui catalogá-los, embora gostasse de o ter feito...mesmo aqueles que não consegui acabar de ler! Não vou dizer quais...era capaz de estar a passar a mim mesma um "atestado de...burrice", sei lá! Mas compenso com este pormenor: há outros que li e reli, que,muito provaelmente, voltarei a folhear na primeira ocasião... e há os que choro e se perderam nos empréstimos, nas mudanças...Onde pára a minha "História do Mosquito Zig-Zag e da sua Noiva, a Mosquinha Zizi", de Virgínia Lopes de Mendonça , se a memória me não falha; onde está "O retrato de  Ricardina", de Camilo Castelo Branco, capa de precalina vermelha com letras floreadas a preto, ao gosto arte-nova, acho...onde estão as minhas aventuras do Cavaleiro Lagardère, que fizeram sonhar os meus doze, treze anos...

 

Lidos ou não...valorizo-os como objecto, mas também como amigos fiéis, companheiros de todos os tempos, desde que aprendi a juntar as letras.Para férias...só, só trouxe quatro por companhia...Tenciono lê-los ao fim da tarde, na varanda, com a Pen deitada a meus pés...

publicado por mfssantos às 22:49

08
Jun 12

 Não estava à espera de ir ver a Barca do Inferno de Gil Vicente como a representada pelo TEUC, com encenação de Paulo Quintela.

 Já tinha noção que Gil Vicente iria ser recriado por um olhar contemporâneo, por um estudioso dos nossos dias - João Garcia Miguel. Mas fui, sem imaginar ao que ia, num convite de última hora que me soube bem.

 

 A Caixa Negra da ASA estava quase cheia; o palco logo ali, ao nosso nível, os actores a um passo de nós, o controlo de som e luz debaixo do nosso olhar. Das Barcas partiríamos para uma viagem, que se não iria limitar ao texto de Gil Vicente, mas dele partiria para o mundo, o mundo descoberto pelos Portugueses e o mundo actual, no qual vivemos, com toda a sua alegria e contradições, abusos , excessos...um mundo voltado do avesso... convidando a  um olhar crítico, convidando à reflexão.

 

O espectáculo desenrolou-se sem interrupções, mudanças de cena e de indumentária à vista do público, curioso perante a simplicidade absurda de um trapo que se vira do avesso, se puxa para a cabeça ou se ata em nó sobre o peito, se  despe e se veste sem chocar o nosso pudor, tal a força da impressão estética que causa.

Tendo lido recentemente (com a neta a preparar exames)  a Barca do Inferno, fácil me foi ir identificando as personagens-tipo tão fortemente sugeridas pelo texto de Gil Vicente. Inesperadamente, não a roupa, mas a voz, os grunhidos, os gritos roucos, a mímica, a expressão corporal.... deram logo a conhecer o Diabo. E as outras foram chegando, o fidalgo com a sua cadeira transportada pelo criado, o onzeneiro solicitando do público uma nota, uma moeda...o frade com a  sua gabarolice sórdida, Brízida, a alcoviteira, o Judeu, tão mal tratado,todos a quem foi proibido entrar na Barca da Glória...o Parvo na sua rude inocência...todos, os quatro Cavaleiros, defensores do St. Sepulcro, que o Anjo vem a acolher.

 

 Mas tudo se foi complicando, sugerido por efeitos multimedia que, penso, cada um ia vivendo, imaginando, intepretando à sua maneira. E o povo

português,ali representado em palco pelo pequeno grupo de actores, já não o conjunto de "tipos" proposto pelo dramaturgo, surge como um povo lançado à aventura,à descoberta de novas gentes, novos mundos ...Reconhecemos a música brasileira e dançámos o samba e, ao som de um solo de percursão inolvidável, dançámos o batuque - a América e a África ali tão perto...E a Ásia? perguntei-me. Pois fui "inventá-la" na figura projectada na parede, no jogo de sombras no qual "vi" um Buda...imaginação minha, apenas...Figuras populares, gigantones, senhores doutores, muitos salamaleques, insultos violentos, sugestões de guerra, de armas, bombas, turbulência,abusos, cruzes, muitas cruzes, que me fizeram lembrar campos de concentração, ambientes pesados, mímica despudorada, corpos que se iam desnudando ao som estrondoso,espelho do ruído, dos ruídos, deste nosso mundo tresloucado, de pernas para o ar, em que  hoje vivemos...apartes sobre a situação política contemporânea,em texto muito à maneira de Gil Vicente...até ao climax na bela canção "Acordai", de Lopes Graça....Se a representação tivesse terminado ali...já deixava muito que reflectir...teria  sido já um espectáculo para dar que pensar...Foi, porém, mais extenso, movimentado, agressivo,oferecendo, em contraste, conjuntos humanos de estátuas vivas, de inegável harmonia e beleza, impressivos, inesquecíveis pelo esforço, não apenas psicológico,na incarnação de uma personagem, mas também físico, de nível atlético, que não sonharíamos ir fazer parte de uma peça, tributo à maestria de Gil Vicente.

 

Com a certeza de não ter abarcado na totalidade a força destas "barcas", aprecio o espírito criativo do encenador e o talento daquele punhado de actores, espantosos na sua entrega e vitalidade, na portentosa arte de comunicar. Felicitações. Sorte a nossa, que nos deixaram a recordar e a reflectir.

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publicado por mfssantos às 20:03

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