"cantarei" o que a vida me oferecer... bichos...efemérides...alegrias...raivas(!) e o que mais adiante se verá!

29
Jan 11

Numa de ocupar o tempo, vim ao Google, procurar "umas coisas", por exemplo, alguma informação  sobre o Canal Q, o 15 do Meo, pois apanhei aí uma extraordinária entrevista a Simone de Oliveira.Ela é da minha zona e uns meses mais velha que eu. Cruzei-me com ela um dia num cabeleiro da baixa de Coimbra; e digo, para além daquela voz que fez uma época, ela tinha uma pele lindíssima, parecia de porcelana . Mantém a vivacidade e frontalidade de então, apesar das rugas e dos trambolhões que a vida dá. Foi um gosto vê-la e ouvi-la, embora sobre o tal Q...nada descobrisse!

 

Voltei-me para outros interesses, fui pesquisar o endereço www.casadaleitura.org . Entre outras informações, havia uma referente a um inquérito sobre "Livros da Minha Infância". E logo a minha memória ficou alerta!

Fui às profundas do tempo e consegui vizualizar a capa de um livrinho duma colecção em voga na época - não era como hoje , que há dezenas de livros dedicados às crianças. Naquele tempo...era a "Branca de Neve", o "Pinóquio","A Gata Borralheira"... O tal da capa sugestiva - uma grande lagosta de ar "façanhudo" e garras ameaçadoras - chamava-se "A Fada Vingativa". Não me lembro da história, recordo, porém, que a lagosta era a representação do tal ser demoníaco e vingativo que assustou os meus 5 ou 6 anos. Muito mais positiva é a lembrança das aventuras de "O Mosquito Zig-Zag e a Mosquinha Zizi". Tamanho A4, ilustrado em preto,desenhos sugestivos a tinta da China, falava da chuvada que um dia atingiu os insectos da floresta,com consequências desastrosas: a Senhora Carocha (ou seria barata?), que apanhou uma constipação, embora a ilustração mostrasse a tapá-la uma dezena de cobertas e cobertores, que lhe deixavam de fóra apenas as antenas; a Mosquinha Zizi, presa na teia da esfomeada Aranha; e o Zig-Zag, reporter do jornal da floresta ,feito SherlocK Holmes à procura da desafortunada noiva...uma delícia, história policial para miúdos, escolha do velho Primo, inspector do Ensino Primário reformado, que me ensinara a ler uns tempos antes...

O mais negativo destas lembranças é a consciência de não saber onde pára o tal livro! Já quis comprar outro...mas não sei, ao certo, o nome da

autora...Virgínia Lopes de Almeida? ou seria Mendonça...? Que estranha confusão! Mas nunca ninguém ouviu falar...Resta-me conformar-me!

Numa fase seguinte, também pela mão de meu Primo, apareceram as narrativas de Adolfo Simões Muller, fantasiando a vida de Madame Curie, de

Camões, de Fernão Mendes Pinto(?) talvez..."Os Lusíadas" contados às crianças, de João de Barros...para ler de um fôlego! Às tantas, já estava a ler romances"de capa azul", livros de capa e espada (todos os Lagardère...) , algum Camilo (que comovente "O Romance de Ricardina!),todo o Júlio Dinis...António Botto...E todos os policiais da família!

Ainda hoje tenho sempre em mãos um livro qualquer, às vezes dois, se um deles é de difícil leitura - o Livro da Consciência, de António Damásio, por exemplo, que me desperta uma enorme curiosidade, mas que exige conhecimentos que não possuo...

 

De certo muita coisa terá ficado lá no fundo da memória sem que eu disso tenha consciência...Não faz mal. Já foi bom recordar tudo isto.Não posso é deixar de expressar a minha gratidão à memória de quem me abriu portas, me levou pela mão, investiu numa "biblioteca" atraente

para alguém a crescer, a devorar informação,a criar hábitos de leitura que espero poder continuar a cultivar, se olhos e "cabecinha" mo permitirem. 

Obrigada.

 

 

 

 

 

 

publicado por mfssantos às 16:31

27
Jan 11

Foi o que senti hoje ao ouvir e ver na televisão um poema de Manuel Alegre cantado por Sérgio Lucas. "Conheço aquela cara", pensei. E pus-me à escuta. Quando dei por mim, rolavam lágrimas quentes dos meus olhos! Ora esta!

Pois é. A Guerra de África não me tocou directamente. Mas conheci gente que a viveu de perto, ouvi falar do medo, dos horrores, dos perigos...que sei eu? nada que diga acrescentará grande coisa. E também li sobre Nambuangongo. Com espanto e dor.E raiva, talvez. Sem querer ser pretenciosa, observei estas mesmas emoções na interpretação que aquele jovem, que vimos crescer musicalmente na "Operação Triunfo" de há tempos (ou terá sido nos Ídolos?), nos proporcionou. Ele soube valorizar as palavras e o sentimento do poeta, ao ponto de transmitir para o lado de cá a força do poema.

 

O programa apresentava um antigo combatente que procurava contactar os seus  camaradas daqueles tempos. Esse foi outro aspecto  comovente presente: os laços que o companheirismo tece , as amizades que o momento gera e se mantêm, pese embora a distância e os silêncios não desejados. Isto não me espanta. Não.Próximo de mim, constatei, de igual modo, a emoção de alguém que, visitando recentemente com colegas o local onde fizera a recruta,reviveu com os olhos baços a dureza, o esforço, a disciplina militar...mas também o brio, a honra, o reconhecimento das qualidades que  todos ali desenvolveram, e que perduram.

 

Há indivíduos notáveis. Mas o grupo, o grupo de gente bem formada...tem muita força!

Quanta emoção!

publicado por mfssantos às 15:21

18
Jan 11

 

 

"Deixa arder, que não é meu!"

 

 A frase ouviu-se no adro da capela da Senhora da Piedade naquele Estio abrasador, que reduzira o ribeiro a um fiozinho de água envergonhado. Uma cana de foguete caíra nas estevas ressequidas e o fogo propagava-se a uma velocidade inimaginável. Enquanto a ajuda de profissionais abnegados não chegou, as labaredas tomaram conta da Serra, que ardeu durante mais de duas semanas. As cinzas caíam nos telhados das casas das aldeias próximas , deixando as populações de guarda noites a fio -  a imagem perdura na minha memória... 

A este acontecimento atribuo eu o medo, o respeito, talvez, que o fogo me inspira. Tenho sempre dito que é o que mais receio... Até  agora.

 

É que a queda de chuva intensa destes últimos tempos que, de modo indiferenciado, levou às inundações na Alemanha, na Austrália, no Brasil, não esquecidas ainda as da Madeira, dos Açores e as que,sazonalmente, assolam o nosso Ribatejo, esta chuva avassaladora deixa qualquer um em pânico perante a impotência, a pequenez das capacidades humanas.É que, desta vez, é a sério .Não é nenhum filme baseado em história trágica, como "As Chuvas Voltaram", inspirado no romance de Louis Bromfield "The Rains Came", estes uma outra lembrança da minha juventude que permanece.

 

Fogo e água, dois bens preciosos que, desgovernados, tanta aflição e miséria causam! Que pode o Homem, no seu orgulho e auto-suficiência,que pode a ciência todo-poderosa, que podem "os ricos", os convencidos de que tudo sabem, tudo podem, que podemos todos perante estas forças  que nos ultrapassam, alertando-nos para a nossa pequenez?

E que pode cada um de nós para minimizar o sofrimento dos que sobreviveram?...

 

 

publicado por mfssantos às 17:39

11
Jan 11

 Viva, Mourinho! Mas não peça desculpa por falar àquelas gentes todas na língua de Camões! Disse bem, orgulhe-se  de ser Português e continue a ser um exemplo para "os velhos do Restelo". Que eles entendam que o trabalho, a perseverença, o assumir riscos de forma controlada, o  não desisistir nem desanimar nunca, o ter consciência do seu valor sem se tornar um presumido..."last, but not the least", o poder contar com apoio dos que o amam....tudo isto dá forças para procurar ser o melhor, o melhor do mundo! Parabéns desta avó, que até nem sabe nada de futebol.

publicado por mfssantos às 16:40

10
Jan 11

Sou "agarrada" às coisas. Sim, agarrada. Às coisas. Que coisas?! Lustres de cristal e anéis de rubi? Qual!!! Coisas simples, vulgares, sem a mínima dignidade, por vezes. Por exemplo, o prato rachado oferecido pela Prima velhinha, porque "esta fábrica já não existe, até pode ser que tenha valor". O relógio de parede da Avó,mecanismo impecável, mas que, de cansaço, por certo,se recusa a cantar o seu tlim-tlim...e por aí adiante. O prato de decoração silvestre pendurado na sala, que no verso diz "Casa Viriato, Santos" - restos da passagem de meus Avós pelo Brasil. A imagem de Cristo na cruz, uma lembrança de Tia- Avó devota.O louceiro de vinhático, abandonado e desprezado largos anos, mas que , agora recuperado, faz uma vistaça. O candeeeiro de azeite que já não dá luz, presente de casamento de um Tio muito querido com parcos recursos. A aliança de casamento da Avó paterna, dois elos entrelassados que se não separam e encaixam na perfeição - imagem belíssima do que deve ser o matrimónio...A velha casa de brasileiro com a data de 1890 na grade do portão da entrada...É um nunca acabar de pequenas grandes coisas.

 

Ser "agarrado" a coisas não é, necessariamente, ser mesquinho. Ao contrário, é respeitar a memória daqueles que as entregaram à nossa guarda, penso eu. Pode tratar-se de uma ninharia, mas, se foi oferecida com carinho, será conservada e zelada  carinhosamente.

 

Neste espírito, com muita alegria, enviei ontem à minha neta o roupeiro que foi do quarto de sua Mãe, para que ela possa guardar comodamente os atavios de senhorinha, que ela começa a apreciar, nos seus treze anos doces de princesa.Que te dê muito jeito, querida.

publicado por mfssantos às 18:33

05
Jan 11

Acabo de chegar . Passei uns dias numa aldeia dos contrafortes da Serra da Lousã.

        Ao entrar em casa ligo a Tv. - e a tal linha é notícia. Pelos piores motivos: Já não há linha! Sim, verdade. Arrancaram os carris, nivelaram o terreno...e agora ...é um estradão de barro vermelho! As obras, as tais que levariam à construção do Metro de superfície...pararam!!! Estarão para re-avaliação? Mas esta não é uma obra faraónica! Foi iniciada depois de anos de discussão, e avaliação, e aconselhamento, e ouvidos os interessados! Mas alguém deu prioridade aos interessados? E estes quem são? Estes conheço eu bem: são estudantes, que em Coimbra fazem a sua valorização pessoal; são operários, trolhas, mecânicos, electricistas...mulheres a dias, auxiliares no enorme hospital universitário, gente que vai "às compras"  à cidade, ou ao cinema, ou visitar familiares...Tudo gente simples, vivendo as suas vidas programadas com antecedência, há muito.Alguém se responsabiliza pelo enorme transtorno que este adiamento representaraá no seu dia-a dia?!

 

Esta linha já serviu para a minha Avó, falecida em 1917, ir a banhos à Figueira da Foz. Comprovam-no as fotos tiradas em fotógrafos locais.

Com meia dúzia de anos , ia eu a Coimbra com os meus Pais, às compras ( ainda não havia Dia, Litle, Intermarché...) nos velhos combóios verdes, com primeira e segunda classe, que paravam algures para meter água, que a fornalha iria aquecer e transformaria em vapor que haveria de volver força motriz, bufando baforadas de fumo sob túneis, sobre pontes, durante umas duas dúzias de quilómetros até o seu destino...

Lá pelos anos 50 vieram as automotoras, uma carruagem-salão, em que o condutor guiava o monstro de ferro, agora movido a óleos, evitando a fumaça,, lado a lado com os passageiros.Menina curiosa, lembro daquela vez em que perguntei " se as mudanças eram como nos carros".E ele explicou: " imagina um H maiúsculo - para cima e para a esquerda...primeira; para baixo e para a esquerda...segunda; para cima e para a direita..terceira; para baixo e para a direita..quarta." O esclarecimento ficou para a vida.

Já mais próximo de nós, vieram as grandes carruagens, duas, três...puxadas pelo motor da dianteira. Os dois ou três transportes diários de antigamente ocorrem agora de hora a hora, abarrotando de gente, em especial em horas de ponta. Dizem que só a linha Sintra/Cascais - Lisboa teria maior movimento!

 

E hoje?

Provisoriamente, autocarros servem de substituto, serra acima, serra abaixo, curva, contra curva...E se a Refer se lembra de deixar de patrocinar este triste remedeio?...O que farão as centenas de utentes que organizaram as suas vidas na suposição de que existia uma Linha da Lousã?

 

Entretanto, há uma petição  on-line... Proteste! Apoie! É mais que justo.

publicado por mfssantos às 17:22

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